Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Um tiro no próprio pé

 

 

Quem frequenta o 'Parada'  há  tempos deve se lembrar de um post que escrevi  em novembro de 2008 intitulado 'Aprendendo línguas estrangeiras' .

Nele eu conto sobre uma aluna de francês na Berlitz daqui que só queria ter aulas comigo- apesar de eu não ser professora oficial de francês na escola . 

(Oficialmente sou professora de português -que é minha língua nativa- mas como domino igualmente o inglês e o francês, ocasionalmente  sou chamada para 'quebrar um galho' e dar uma aula destas duas línguas como professora substituta.

O fato é que a aluna em questão, (uma senhora muito exigente , de temperamento meio difícil mas no fundo ótima pessoa...)  não se deu  bem com nenhuma das professoras 'francesas' da escola . No entanto,  após ter uma aula  'experimental' com a professora 'substituta'  ( EU! ) , nunca mais quis ter aulas com  mais ninguem ! lol ( Algo que vai contra o sistema  de ensino da Berlitz,  que tem como regra básica , o rodízio de professores com os alunos...)

 A meu ver,  a  explicação  do que ocorreu neste caso  é muito simples : 1)  apesar de não ser uma 'native French speaker' ,  meu francês é fluente e tenho pouquíssimo sotaque  ( O que significa que um aluno em nível iniciante não é capaz de perceber  a diferença...) .  2)  ( provavelmente o fator mais importante! )  - são exatamente 23 anos de experiência dando aulas com o método Berlitz !!

 

Sim, eu tinha vinte aninhos quando comecei a dar aulas na escola de Ipanema e desde então já passei pelas filiais de Lisboa , Berlim e agora Austin....  Não é pra querer me gabar ...mas, cá entre nós,   quantos professores de línguas podemos encontrar por aí a fora com tamanha experiência e know how nesta  área?? 

Sem falar que me formei precisamente em literatura e civilização francesa!

Ora, a aluna em questão , bem sabia  porque queria  continuar  tendo aulas sempre com a mesma professora - and who can blame her?! lol

 

No final  a escola acabou  cedendo e aceitou  a exigência de Mrs. G.  ( tambem cobrando o que eles cobram, tinha até graça!) .

Então,  sempre que  esta se encontrava  em Austin ( pois  ela mora parte do tempo na Califórnia...)  era sempre  eu a professora escalada para lhe dar aulas de francês.

 

 Então veio o verão.  Minha aluna se despediu de mim dizendo que iria passar um mês na Califórnia ( onde está construindo uma casa de praia ...) e que  assim que voltasse ao Texas entraria em contato para recomeçarmos as aulas...

 

O que acontece?

 

Quando volta de férias,  Mrs. G  é informada  pela escola de  que 'não estou mais dando aulas lá...'

A Berlitz,  depois de ANOS  sabendo que ensino  em outros estabelecimentos da cidade ( incluindo a Universidade do Texas) , de repente cismou com um dos institutos  onde  soube que dei um curso recentemente.  

Disseram-me que tratava-se de 'um concorrente' e daí em diante passaram a me boicotar na escola, não me dando mais aulas!  Pode?

( O mais ridículo é que  a escola daqui,  ao contrário da do Rio , Lisboa e Berlim,  que viviam CHEIAS de alunos e portanto davam muitas aulas aos professores, vive às moscas!!   Mas ainda assim,  se sente no direito de achar ruim quando seus professores dão aulas em outros estabelecimentos!!  É mole??)   Ora , se você deseja exclusividade,  tem mais é que pagar MUITO BEM  e dar aulas de sobra aos seus professores!  Get real!

 Enfim,  mentiram para a aluna dizendo que eu 'não trabalhava mais lá' e pior:  quando ela lhes  disse que não queria outra professora  e pediu o meu contato ,  se recusaram a lhe dar a informação!

Só que  outro dia cruzei com ela no shopping   e imaginem qual não foi sua surpresa e alegria ao me reencontrar!

 Resumo da ópera:

Mrs. G agora é minha aluna PARTICULAR pois acabou saindo  da Berlitz.

Eu , de previamente ( e injustamente) boicotada,  agora  passei a ganhar  o triplo do que ganhava para dar aulas na escola e ainda por cima sem ter que sair de casa! 

 

É isso o que dá quando certas pessoas ou estabelecimentos resolvem ferrar com os outros ( neste caso tanto a aluna quanto a professora...) , por puro despeito, burrice ou inflexibilidade absurda.

Às vezes a vida bem que é justa...

 

 

Em todo caso,  no futuro,  acho que vou estar escrevendo mais e ensinando menos. Já tinha mesmo pensado nisso.

Thank goodness O 'Copadrama' está vendendo bem e já tenho até a idéia do próximo livro... - um manual  para se estudar português básico para viagem -  com ou sem professor!  lol

 

sinto-me: Vingada pelo destino!
publicado por Pâmelli às 05:08
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Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

A deportada - parte 2

Ou:  Quando o tiro sai pela culatra ...

 

Então quando J. me viu na festa,  me perguntou:

 

-Você soube o que aconteceu com a N.?

-Não...-  respondi.  -  O que foi?

-Não soube?  Pois não é que ela foi deportada...Pra Europa!! 

-Pra Europa?  ( Isso não parecia fazer o menor sentido.  Digo , não sobre a deportação,  mas sobre  ela ser mandada de volta para a Europa ...)

 

Então eu fiquei sabendo dos detalhes:

 

N. havia se casado com um cidadão americano.  Um acordo.  Um casamento falso , apenas com o objetivo de poder se legalizar aqui.

Me lembrei então das várias conversas que tivemos em minha casa,  enquanto ela fazia a limpeza e eu a ajudava com uma coisa ou outra.

N. era obcecada pela idéia de se casar com um americano a fim de , uma vez legalizada ,  poder voltar ao Brasil sempre que quisesse de férias ou para rever as filhas. ( Este , aliás,  é o drama de muitos ilegais aqui :  eles chegam a ganhar bem,  estabelecem uma vida inteira no novo país,  mas como são ilegais , nunca podem retornar ao próprio país já que se o fizerem , depois ao tentar voltar  novamente para o país estrangeiro,  não conseguem mais entrar...).

Me lembrei de QUANTAS vezes eu lhe disse que isto era péssima idéia ;  que ela pensasse em tudo o que já tinha conseguido até alí (  clientes fixas, carro, casa, amigos, uma ótima renda todo mês...  Que  o fato de não poder viajar de volta ao Brasil  era ruim  - ainda mais tendo dinheiro de sobra para fazê-lo...-  , mas ela sempre podia mandar uma passagem para as filhas virem lhe visitar de vez em quando -  o que aliás , ela  chegou a fazer  mais de uma vez...)

 

- Um dia você pode até conhecer um americano 'de verdade' , se apaixonar e se casar com ele pelos bons motivos.  Então poderá se legalizar.  -  disse-lhe.

 

Me lembro que lhe dei inclusive o exemplo de outra brasileira , em situação muito parecida com a sua , que após 3 anos vivendo ilegalmente nos E.U. e trabalhando como manicure e faxineira,  acabou de fato conhecendo a pessoa  certa. 

Se casaram e ela conseguiu ,  com a ajuda de um advogado,  legalizar sua situação  apesar de tudo ter começado  de maneira 'errada' .

Hoje  esta moça está casada,  tem uma filha e trabalha legalmente em um setor especializado no Central Market - um SUPER supermercado , com produtos de alta qualidade e especiarias finas do mundo inteiro . 

 

Cá comigo ,  ainda pensei que se  N.  emagrecesse um pouco ,   suas chances de encontrar um homem 'direito'  ( digo , que estivesse realmente interessado nela...) ,   ainda seriam maiores ! lol 

É que me lembrei  do que meu marido  me disse certa vez  quando  fiz o seguinte comentário:     "Americano não liga se a mulher é gorda ou bagulhenta..." 

Ao que ele respondeu:  

  "'Não é verdade.  É certo que há  aqueles que se casam com a namorada já grávida ou depois que já tiveram um filho e engordaram .  Mas a maioria se  casa com as moças quando ainda eram magras e bonitinhas...Só que , ao contrário dos  homens brasileiros,  costumam ficar casados mesmo depois que elas embagulham..."   :-))) 

 E é aí que entra a academia de ginástica !  - pensei.  :-)

 

Me lembro que ainda tentei convencer  N. a entrar para minha academia (  afinal 80 dólares por mês para ela, que ganhava mais de 3.000 ,  não era nada!) . Porem ela  nunca considerou a idéia e preferiu  continuar  se empanturrando de besteiras e porcarias e simplesmente 'gastando as calorias nas faxinas...' , como costumava dizer. :-((

  Lhe disse  que hoje em dia era muito mais difícil enganar as autoridades do que já tinha sido no passado.  Desde o 11 de setembro  ( ou talvez até antes disso) eles andavam com a pulga atrás da orelha e queriam saber direitinho quem estava casando com quem e por que.  Cheguei a dar-lhe o meu próprio exemplo dizendo lhe que , apesar de nunca ter ficado um único dia aqui ilegal e de ter um casamento totalmente 'normal' ,   meu marido e eu tivemos de passar por mais de uma entrevista juntos antes de finalmente conseguir o meu Greencard.

Era loucura se casar com um estranho ( pior,  com um GAY,  como ela pensava em fazer ! ) e achar que poderiam enganar  o agente da imigração. 

 

-Do jeito que está,  as autoridades podem nunca vir a saber que você anda por aqui.  Já ,  no momento que se casar , eles virão a saber e vão fuçar a sua vida até descobrir se há algo de errado ...

 

De nada adiantou e eu gastei meu latim a toa .  Na verdade eu nem sei porque perdi tanto tempo tentando lhe convencer de algo que,  para qualquer pessoa com mais de dois neurônios , era  tão óbvio.

  Mas N. era aquele tipo de pessoa que ouvia tudo o que lhe diziam,  fingia concordar e depois saía  e fazia TUDO  diferente!  

 

 Ainda segundo J. ,   ela havia de fato 'se casado' com um americano gay.  Provavelmente um conhecido seu , a quem ela teria pago  para fazer o 'negócio'.    Então passados alguns meses os dois foram chamados para a entrevista.

( Me lembrei  então de NOSSA entrevista -  a última que tivemos antes de me darem o Greencard dos 10 anos... - em que o entrevistador pediu à meu marido que saísse da sala e depois me perguntou o que havíamos feito aquele ano no meu aniversário...

Por um momento eu tive de pensar,  já que isto foi no ano passado e eu tinha feito 41 anos. (  Se fosse no ano anterior eu teria me lembrado de imediato uma vez que tínhamos viajado à França para o meu aniversário de 40  !! :-))) .  Mas enfim ,  me lembrei :  Fomos jantar em um restaurante muito romântico em nossa cidade,  cujo chef era meu conhecido e ex-aluno particular de português...Por sorte meu marido tambem se lembrou quando lhe fizeram a mesma pergunta mais tarde , após pedirem para eu sair da sala !  lol)

 

Enfim,  antes mesmo do final da entrevista de N. e seu 'marido' ,  o oficial  decretou  sua prisão.  É óbvio que a mentira viera a tona em dois tempos. 

O americano ainda acabou sendo liberado ao assinar um documento confessando tudo.  Já ela....Aí é que vem a ironia das ironias...

 

Como havia entrado nos E.U. usando seu passaporte ITALIANO,  N.  , ao invés de ser mandada de volta para o Brasil , foi deportada para a Itália!  -  isto depois de ficar presa   ( de uniforme de presidiária e tudo ...) ,  durante 3 semanas , antes da deportação oficial .

Logo ela , que não falava uma palavra de italiano,  nunca  esteve ou quis ir à  Itália e não conhecia uma alma penada por lá !!

 

A burrice sai caro. 

Por outro lado, isto tambem deveria servir de lição para o governo italiano que facilita de maneira tão absurda a aquisição do passaporte italiano. 

Imagina:  se ela quisesse, poderia simplesmente se instalar por lá,  quem sabe  até pedir  uma ajuda do governo italiano  e se tornar MAIS uma européia  desempregada vivendo de welfare...

 

Posso bem imaginá-la ,  chegando à Itália,  deportada e sem dinheiro -  pois eles não deixam que a pessoa leve NADA consigo - nem mesmo a escova de dentes!

Acabou por perder tudo o que conseguira até aqui durante os quase cinco anos que viveu na América.  Por sorte não tinha dinheiro algum no banco.  Imagino que talvez tivesse algumas economias no Brasil...

 

 Segundo J.  ,  N. agora está de volta ao Brasil. 

Deve ter pedido para alguem  ( quem sabe o ex-marido) lhe mandar a passagem de volta para casa.

 Se fôr otimista , talvez pense que sua odisséia serviu para duas coisas:  1)   Na prisão ela emagreceu mais de dez quilos e ...2)  Agora que está de volta ao Brasil , sem dinheiro e desempregada,  talvez   suas filhas  finalmente comecem a se mexer e arrumem  algum trabalho...

 

 

 

sinto-me:
publicado por Pâmelli às 16:22
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