Quinta-feira, 7 de Agosto de 2008

A deportada - parte 2

Ou:  Quando o tiro sai pela culatra ...

 

Então quando J. me viu na festa,  me perguntou:

 

-Você soube o que aconteceu com a N.?

-Não...-  respondi.  -  O que foi?

-Não soube?  Pois não é que ela foi deportada...Pra Europa!! 

-Pra Europa?  ( Isso não parecia fazer o menor sentido.  Digo , não sobre a deportação,  mas sobre  ela ser mandada de volta para a Europa ...)

 

Então eu fiquei sabendo dos detalhes:

 

N. havia se casado com um cidadão americano.  Um acordo.  Um casamento falso , apenas com o objetivo de poder se legalizar aqui.

Me lembrei então das várias conversas que tivemos em minha casa,  enquanto ela fazia a limpeza e eu a ajudava com uma coisa ou outra.

N. era obcecada pela idéia de se casar com um americano a fim de , uma vez legalizada ,  poder voltar ao Brasil sempre que quisesse de férias ou para rever as filhas. ( Este , aliás,  é o drama de muitos ilegais aqui :  eles chegam a ganhar bem,  estabelecem uma vida inteira no novo país,  mas como são ilegais , nunca podem retornar ao próprio país já que se o fizerem , depois ao tentar voltar  novamente para o país estrangeiro,  não conseguem mais entrar...).

Me lembrei de QUANTAS vezes eu lhe disse que isto era péssima idéia ;  que ela pensasse em tudo o que já tinha conseguido até alí (  clientes fixas, carro, casa, amigos, uma ótima renda todo mês...  Que  o fato de não poder viajar de volta ao Brasil  era ruim  - ainda mais tendo dinheiro de sobra para fazê-lo...-  , mas ela sempre podia mandar uma passagem para as filhas virem lhe visitar de vez em quando -  o que aliás , ela  chegou a fazer  mais de uma vez...)

 

- Um dia você pode até conhecer um americano 'de verdade' , se apaixonar e se casar com ele pelos bons motivos.  Então poderá se legalizar.  -  disse-lhe.

 

Me lembro que lhe dei inclusive o exemplo de outra brasileira , em situação muito parecida com a sua , que após 3 anos vivendo ilegalmente nos E.U. e trabalhando como manicure e faxineira,  acabou de fato conhecendo a pessoa  certa. 

Se casaram e ela conseguiu ,  com a ajuda de um advogado,  legalizar sua situação  apesar de tudo ter começado  de maneira 'errada' .

Hoje  esta moça está casada,  tem uma filha e trabalha legalmente em um setor especializado no Central Market - um SUPER supermercado , com produtos de alta qualidade e especiarias finas do mundo inteiro . 

 

Cá comigo ,  ainda pensei que se  N.  emagrecesse um pouco ,   suas chances de encontrar um homem 'direito'  ( digo , que estivesse realmente interessado nela...) ,   ainda seriam maiores ! lol 

É que me lembrei  do que meu marido  me disse certa vez  quando  fiz o seguinte comentário:     "Americano não liga se a mulher é gorda ou bagulhenta..." 

Ao que ele respondeu:  

  "'Não é verdade.  É certo que há  aqueles que se casam com a namorada já grávida ou depois que já tiveram um filho e engordaram .  Mas a maioria se  casa com as moças quando ainda eram magras e bonitinhas...Só que , ao contrário dos  homens brasileiros,  costumam ficar casados mesmo depois que elas embagulham..."   :-))) 

 E é aí que entra a academia de ginástica !  - pensei.  :-)

 

Me lembro que ainda tentei convencer  N. a entrar para minha academia (  afinal 80 dólares por mês para ela, que ganhava mais de 3.000 ,  não era nada!) . Porem ela  nunca considerou a idéia e preferiu  continuar  se empanturrando de besteiras e porcarias e simplesmente 'gastando as calorias nas faxinas...' , como costumava dizer. :-((

  Lhe disse  que hoje em dia era muito mais difícil enganar as autoridades do que já tinha sido no passado.  Desde o 11 de setembro  ( ou talvez até antes disso) eles andavam com a pulga atrás da orelha e queriam saber direitinho quem estava casando com quem e por que.  Cheguei a dar-lhe o meu próprio exemplo dizendo lhe que , apesar de nunca ter ficado um único dia aqui ilegal e de ter um casamento totalmente 'normal' ,   meu marido e eu tivemos de passar por mais de uma entrevista juntos antes de finalmente conseguir o meu Greencard.

Era loucura se casar com um estranho ( pior,  com um GAY,  como ela pensava em fazer ! ) e achar que poderiam enganar  o agente da imigração. 

 

-Do jeito que está,  as autoridades podem nunca vir a saber que você anda por aqui.  Já ,  no momento que se casar , eles virão a saber e vão fuçar a sua vida até descobrir se há algo de errado ...

 

De nada adiantou e eu gastei meu latim a toa .  Na verdade eu nem sei porque perdi tanto tempo tentando lhe convencer de algo que,  para qualquer pessoa com mais de dois neurônios , era  tão óbvio.

  Mas N. era aquele tipo de pessoa que ouvia tudo o que lhe diziam,  fingia concordar e depois saía  e fazia TUDO  diferente!  

 

 Ainda segundo J. ,   ela havia de fato 'se casado' com um americano gay.  Provavelmente um conhecido seu , a quem ela teria pago  para fazer o 'negócio'.    Então passados alguns meses os dois foram chamados para a entrevista.

( Me lembrei  então de NOSSA entrevista -  a última que tivemos antes de me darem o Greencard dos 10 anos... - em que o entrevistador pediu à meu marido que saísse da sala e depois me perguntou o que havíamos feito aquele ano no meu aniversário...

Por um momento eu tive de pensar,  já que isto foi no ano passado e eu tinha feito 41 anos. (  Se fosse no ano anterior eu teria me lembrado de imediato uma vez que tínhamos viajado à França para o meu aniversário de 40  !! :-))) .  Mas enfim ,  me lembrei :  Fomos jantar em um restaurante muito romântico em nossa cidade,  cujo chef era meu conhecido e ex-aluno particular de português...Por sorte meu marido tambem se lembrou quando lhe fizeram a mesma pergunta mais tarde , após pedirem para eu sair da sala !  lol)

 

Enfim,  antes mesmo do final da entrevista de N. e seu 'marido' ,  o oficial  decretou  sua prisão.  É óbvio que a mentira viera a tona em dois tempos. 

O americano ainda acabou sendo liberado ao assinar um documento confessando tudo.  Já ela....Aí é que vem a ironia das ironias...

 

Como havia entrado nos E.U. usando seu passaporte ITALIANO,  N.  , ao invés de ser mandada de volta para o Brasil , foi deportada para a Itália!  -  isto depois de ficar presa   ( de uniforme de presidiária e tudo ...) ,  durante 3 semanas , antes da deportação oficial .

Logo ela , que não falava uma palavra de italiano,  nunca  esteve ou quis ir à  Itália e não conhecia uma alma penada por lá !!

 

A burrice sai caro. 

Por outro lado, isto tambem deveria servir de lição para o governo italiano que facilita de maneira tão absurda a aquisição do passaporte italiano. 

Imagina:  se ela quisesse, poderia simplesmente se instalar por lá,  quem sabe  até pedir  uma ajuda do governo italiano  e se tornar MAIS uma européia  desempregada vivendo de welfare...

 

Posso bem imaginá-la ,  chegando à Itália,  deportada e sem dinheiro -  pois eles não deixam que a pessoa leve NADA consigo - nem mesmo a escova de dentes!

Acabou por perder tudo o que conseguira até aqui durante os quase cinco anos que viveu na América.  Por sorte não tinha dinheiro algum no banco.  Imagino que talvez tivesse algumas economias no Brasil...

 

 Segundo J.  ,  N. agora está de volta ao Brasil. 

Deve ter pedido para alguem  ( quem sabe o ex-marido) lhe mandar a passagem de volta para casa.

 Se fôr otimista , talvez pense que sua odisséia serviu para duas coisas:  1)   Na prisão ela emagreceu mais de dez quilos e ...2)  Agora que está de volta ao Brasil , sem dinheiro e desempregada,  talvez   suas filhas  finalmente comecem a se mexer e arrumem  algum trabalho...

 

 

 

sinto-me:
publicado por Pâmelli às 16:22
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

A deportada - parte 1

 

Este post vai ser longo ,  então vou dividí-lo em duas partes.  Hoje escrevo a primeira...

 

Ontem fui à uma festa na beira da piscina.   Era o aniversário de uma amiga uruguaia  que trabalha como intérprete de espanhol em um hospital  aqui  nos  E.U.  já há alguns anos.

Lá encontrei várias pessoas da comunidade latina em nossa cidade,  incluindo uma conhecida brasileira , J.

 

J. é paulistana,  residente nos E.U. há quase 20 anos .  Foi casada com um americano e tem um filho de 16 anos .   É uma moça inteligente e bem sucedida ,  dona de  seu próprio negócio de construções.   Andou uns tempos namorando um amigo de meu marido... ( Small world ! )  Daí que  nos conhecemos.

Na época , descobrimos  que tínhamos uma OUTRA conhecida em comum :  N .

N. e J.  haviam se tornado  amigas ,  tendo se conhecido em um clube de  dança latina que costumavam frequentar para dançar salsa e merengue. 

 

Quanto à mim,  conheci N.  há cerca de uns 3 anos, na loja brasileira da cidade e quando soube que trabalhava fazendo faxinas em casas particulares, logo a 'contratei' para limpar minha casa uma vez por semana.  ( Sempre preferi as brasileiras às mexicanas que fazem limpeza em casas por aqui ; além de limparem melhor,  não tenho que me virar tentando  me comunicar com elas em  'portunhol' ...:-))

 

Durante cerca de um ano N. trabalhou para mim.

Era uma moça nos seus 40 anos,  bonita de rosto ( loira e de olhos azuis) porém  bastante gorda.  Era de Blumenau , no sul do Brasil ,  e portanto descendente  de imigrantes alemães. No Brasil tinha tido uma vida bem confortável,  tendo sido  casada com um dentista e trabalhado como professora em alguma escola primária.  Tinha duas filhas já moças.

Então, após a separação,  ( que aparentemente envolveu um grande 'barraco' ...)   penso que sua situação financeira piorou bastante e ela resolveu vir tentar a sorte  nos E.U. 

Detalhe:  como o ex-marido era descendente de italianos ...(  e a coisa mais fácil que tem é conseguir um passaporte italiano:   não é preciso falar uma ÚNICA  palavra de italiano,  ter morado na Itália,  ter qualquer conhecimento da história ou cultura do país  ... Nada.  Basta que algum antepassado seu tenha sido italiano ou que você  tenha se casado com um  descendente  ) ,  N.   conseguiu , através dele,  seu próprio passaporte italiano. 

  ( Agora, falando sério,  vê se isso tem algum cabimento . Hoje ela nem é  mais casada como o  tal 'descendente de italianos' ! ...)

 

Enfim,  com o tal passaporte da UE ela não teve o menor problema em entrar nos E.U. ( já se viesse com o brasileiro teria de ter  visto e o controle na entrada seria bem maior...).

Assim, ela chegou,  foi ficando,  arrumou várias casas particulares  para trabalhar , alugou apartamento, comprou carro e passou a viver ilegalmente no país.

Chegava a ganhar perto de 3000 dólares por mês -  tax free!   ( 'Somente' umas DEZ  vezes mais do que ela ganhava como professora no Brasil...) 

 

Eu não sou agente da imigração,  nem  tampouco espiã do governo americano .  Sem falar que na época estava muito necessitada de uma faxineira :-))

Portanto quando soube que N. era ilegal , não tomei o menor conhecimento e continuei usando seus serviços normalmente.   Afinal ela era honesta, simpática, entendia tudo o que eu dizia...:-))) e precisava do dinheiro - inclusive para sustentar as duas filhas já  crescidas e  'boas vidas' ,  que insistiam em morar em São Paulo (  a cidade mais cara do Brasil ! ) , apesar de viverem constantemente desempregadas  com a ótima desculpa de que 'uma ainda estava na  faculdade,  e a outra havia se formado 'estilista' e portanto não conseguia arrumar emprego...'  Humph

( Meu colega italiano , da blogosfera,  diria que se eu morasse na Itália hoje e estivesse dando trabalho à um imigrante ilegal provavelmente seria PRESA  ! :-))  Mas aqui é a América e por enquanto  até agora isto ainda não é considerado crime -  pelo menos não quando a pessoa  ilegal em questão apenas faz 'prestação de serviços' para você e não é realmente sua 'funcionária' . )

 

Anyway,  a verdade é que  nunca achei que N. fosse uma pessoa especialmente 'inteligente para a vida' - se é que me entendem. 

Além das filhas 'boa vida' ,  (  cuja vagabundagem  na capital paulista ela não apenas tolerava mas encorajava ,  já que lhes mandava todo mês  uma boa parte do dinheiro que ganhava se matando fazendo faxinas atrás de faxinas todo  dia...)   ,  para completar ,  N.   ainda tinha uma namorado mexicano  :   OUTRO ilegal,  que trabalhava como pintor  de casas e já tinha tido vários DUI s ( sido  pego dirigindo bêbado) . 

( Só se livrou do estrupício quando este  acabou sendo preso e foi finalmente deportado e mandado de volta para o  México...)

 

Foi mais ou menos nesta época que resolvi dispensar seus serviços,  já há muito  irritada com 'pequenas coisas' que ela passara a fazer ( Sentindo-se  'intima da casa' ,  ela agora  só trabalhava pendurada ao celular ,   -  inclusive me quebrou um vaso de porcelana que havíamos trazido de uma cidade da  Irlanda  justamente por isso! -   passou a fazer tromba toda vez que viajávamos e eu dispensava seus serviços , além dos seus inacreditáveis rolos pessoais com o namorado bêbado e as filhas parasitas!)  Enfim,  o fato é que a dispensei e durante mais de um ano não tive mais notícias suas.

Até ontem,  quando encontrei J. na pool party de nossa amiga  uruguaia e fiquei sabendo da 'última' ,   na saga  de N...

 

Bem ,  acho que com isto já dá para se ter uma idéia de onde vamos chegar.

A aguardar as cenas do próximo capítulo...

 

 

sinto-me: Nada surpresa
publicado por Pâmelli às 18:22
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