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Parada Essencial

Benvindos ao "Diário politicamente incorreto da Pâmelli" - uma brasileira/americana childfree, residente nos E.U.A. desde 2003 Viagens, cultura, desabafos e muito mais!

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Rio 2008 - ou a cidade do absurdo

Pâmelli, 06.04.08

 

Era 1992 quando decidi pela primeira vez deixar minha cidade natal -  o Rio de Janeiro.

Na época eu tinha vinte e poucos anos, morava com meus pais  em um belo e confortável apartamento em um dos bairros mais nobres da cidade,  tínhamos empregados,   dava aulas em uma das escolas de idiomas mais conhecidas e tinha vários alunos particulares.   Em suma:  tinha dinheiro no banco,  carro bom e roupas caras para passear, amigos com quem sair,  festas,  praia...  Enfim,  a  Cidade Maravilhosa aos meus pés ! 

 

O problema é que eu não aguentava mais um aspecto muito específico da vida do dia a dia no Rio de Janeiro -  a violência.  Já tinha sido assaltada pelo menos umas três vezes na rua;  vivia com os nervos a flor da pele cada vez que parava o carro em um sinal;  me sobressaltava  por qualquer coisa e mais de uma vez cheguei a emitir um grito de susto e pavor ao ser abordada por algum passante ou turista inocente na rua , que queria apenas me pedir uma informação...

Certa vez cheguei a abrir a porta  do carona e pular para fora  do carro  em pleno movimento , pouco antes deste parar  no sinal na Avenida Atlântica.  Eu tinha  percebido uma criatura de 'aspecto suspeito' nos abordar , evidentemente para nos assaltar.  Corri até o posto de polícia mais próximo para pedir ajuda e minha amiga , que conduzia o carro,  ao parar  no próximo sinal , realmente nos confirmou que havia sido ameaçada pela 'falsa pedinte'  mas que ,  no entanto,   havia arrancado e conseguido escapar a tempo!  ( Naquela época os assaltantes ainda não tinham o hábito de fuzilar os motoristas que , em um instinto de sobrevivência impensado,  ao serem abordados por eles  ,  pisavam no acelerador com toda a força...)

 

- Pamelli,    - disse -me minha amiga  mais tarde.  -  Você tem razão de deixar o Brasil.  Do que jeito que anda,  qualquer dia  desses vai acabar tendo um troço!

 

Aquele episódio acabou por me convencer.  Poucos meses depois,  avisei aos meus pais que iria  abandonar meu trabalho e os alunos particulares , vender meu carro e  comprar minha passagem para a Europa .

 

-Vou trabalhar como " au-pair " ( babysitter :  justo eu , que nunca tive o menor jeito com crianças!),  doméstica...qualquer coisa.  Se bobear me caso com  o primeiro  estrangeiro , só pra não precisar mais voltar para essa Selva de Pedra!

 

Fugi para Portugal.  Morei um ano em Lisboa e passei a trabalhar na Berlitz de lá.   ( Naquela época os brasileiros tinham direito de trabalhar legalmente por lá;  não creio que ainda seja assim hoje em dia...)

No final acabei partindo para a Alemanha -  para me casar.  ( Um casamento 'de verdade' e não por interesse de cidadania, mas que de qualquer forma, foi má idéia.)

O fato é que já naquela época eu achava que a cidade do Rio de Janeiro havia se tornado  'invivível'  !(  Me desculpe Aurélio...)

 

Hoje,  mais de quinze anos depois,  morando nos E.U. e no meu segundo casamento (  Bingo,  desta vez acertei!!) ,  meu marido e eu sempre voltamos ao Rio de férias , ao menos uma vez por ano.  Apesar de tudo é lá que estão minhas raízes,  minha mãe e alguns amigos antigos de infância.  Meu marido adora o Rio.  Eu ,  adoro a comida,  os serviços de salão (bons e baratos ,  ao contrário daqui...) ,  os garçons bem treinados,  os programas culturais (  Municipal?  Peças?  Shows de Bossa Nova?) e o que  ainda restou da antiga joie-de-vivre e  do bom humor carioca.    Apesar disto,  nunca ficamos na cidade mais do que alguns dias e logo partimos para Búzios a fim de poder realmente relaxar.  ( Lá eu chego mesmo a usar o solitário que ganhei de presente de noivado de meu marido,  que adoro,    e que nunca tiro do dedo aqui nos E.U...)

 

Mas o mais estranho são as estórias...Os comentários que ouço das pessoas cada ano quando voltamos.  Coisas que ,  em qualquer outra parte do mundo ( moderadamente civilizado...) seriam consideradas no mínimo 'absurdas' , mas que lá,  no velho Rio,  agora são tão parte da realidade  e do cotidiano das pessoas,  que são tidos como  coisas 'normais'.

 

Há um ano atras foi uma antiga amiga de escola que , agora,  professora no estabelecimento onde estudamos há mais de vinte anos (  uma escola muito exclusiva e cara em uma das áreas mais nobres da cidade...) -  veio me dizer que se sentia 'muito segura' trabalhando e tendo o seu filho agora estudando lá... Afinal,  sempre que a polícia resolve subir o morro (  há uma favela enorme apenas alguns metros da escola) e fazer alguma 'operação' por lá,  eles  avisam  os professores e funcionários com antecedência.  Então  o pessoal manda as crianças ficarem somente na parte interna da escola ,  nas salas de aula ,  que tem vidro blindado.... '  

 

Tudo ótimo , pelo visto.  ( Na nossa época a favela já existia  mas nunca houve casos de tiroteio nem remotamente perto da escola e  as salas certamente não tinham vidros blindados...!)

 

Meu primo é um médico famoso que só anda de carro blindado.  ( normal)

 

Neste ano,  durante nossa última visita à cidade,   ao encontrar uma outra velha amiga para jantar , o que ouço é o seguinte:

 

-  Sabe,  estou saindo com um cara gatérrimo de 55 anos.   ( gatérrimo, com 55 anos? Minha amiga tem 42 e é uma bela moça  ,  com aparência bem jovem tanto de corpo quanto de rosto...) Ele escreve para um jornal local.  O problema é que tá ASSIM  ( gesto de mão designando um montão de gente...) de mulher atrás dele!! 

 

Que coisa deprimente!  - pensei.  Além da catástrofe social ,  o Rio de Janeiro agora sofre tambem da catástrofe demográfica.  Há mulheres demais e homens de menos nesta cidade!  Qual seria a outra explicação para  uma moça bonita,  bem sucedida,  solteira e pelo menos 13 anos mais jovem do que 'um mero escritorzinho de jornal,  com mais de  meio século de existência...'  estar tão insegura  e quase acreditar que 'tirou a loteria esportiva'  ao conseguir fisgar o tal reporter  da folha de domingo?!  Afinal  ,  que me conste,  não está se tratanto aqui de nenhum   Michael Douglas ou Donald Trump....pleaaaaaaaaaaaaase!

 

Por fim,  minha amiga completou me contando sobre um jantar que tivera com uma outra velha amiga nossa e seu marido que ,  segundo ela ,  agora estava 'super orgulhoso...' pelo fato de sua mulher ter posto silicone nos seios. 

 

-Eu nem havia notado nada mas ele fez questão de chamar minha atenção e perguntou se eu não havia notado nada de diferente na ...( nome de nossa amiga em comum).

 

Super orgulhoso??   Será que eu  de repente  fiquei velha demais?  Na minha época (  que aliás é a mesma delas...),  alguem costumava se orgulhar de um filho, amigo ou parente quando esta pessoa realizava alguma coisa de especial, ou quem sabe até de extraordinário!  Um prêmio na escola...Um espetáculo de dança...Uma promoção no trabalho...Quem sabe um livro publicado ou tese completada??  Mas colocar silicone no peito agora virou motivo para que um marido se orgulhe de sua mulher??!

 

A cada ano que se passa eu sinto que estou cada vez mais longe -  e não apenas em termos de distância física...-  da minha antiga realidade,  de minhas origens,  de minha cidade natal.

Meu marido e eu continuaremos voltando ao Rio de férias todos os anos , assim como fazemos religiosamente há cinco anos , desde que nos casamos.  Contudo,  eu sei que a cada ano e a cada nova visita que faremos à cidade eu terei um novo choque , de uma maneira ou de outra.

 

Me parece que o clássico   " Carta ao Tom 74"  , nunca foi tão verdadeiro e atual....  O Rio de 2008 é um Rio surreal.

 

 

 

 

 

 

 

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