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Parada Essencial

Benvindos ao "Diário politicamente incorreto da Pâmelli" - uma brasileira/americana childfree, residente nos E.U.A. desde 2003 Viagens, cultura, desabafos e muito mais!

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Passeio literário, cultural e gourmet pelo Centro do Rio ...

Pâmelli, 20.10.09

 

Nota:  Este post foi escrito há umas 2 semanas,   quando eu  ainda estava no Rio. Meu marido passou o dia  trabalhando online,  e eu resolvi 'dar uma volta até o passado '-  ou o que ainda resta dele no Rio ! 

O post é   looooongo!  Portanto se decidir ler,  pegue uma  boa xícara de café , acomode-se bem e boa sorte!  lol )

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O Centro do Rio  continua tumultuado , com toneladas de carne humana saindo e entrando dos prédios imensos a todo momento . Gente corajosamente caminhando por entre os ônibus e carros, que param descaradamente nas faixas dos pedestres. Um formigueiro de pessoas, cruzando e descruzando as ruas a cada segundo.
 
As ruas,  assim como me lembrava , continuam sujas - principalmente dos papéis de anúncios de 'cartomantes' , , 'restaurantes à quilo' , 'casas de câmbio' e de 'compro ouro' ...que são dados aos pedestres . Coisa totalmente inútil ( além de anti-ecológica...) já que a maioria nem presta atenção no papel que pega e imediatamente faz uma bolinha e joga ...na rua! 
 Penso que deveria haver uma lei contra isso . Digo, tanto o ato de distribuir papéis de anúncios particulares aos passantes , quanto o fato de se jogar lixo na rua.
 
Mas enfim , algumas coisas interessantes ( que não foram demolidas ou ainda não fecharam ou faliram....) ainda sobraram no Centro do Rio. Eis um resumo do que fiz por lá e o que descobri nas várias horas que explorei aquela parte da cidade:
 
Minha longa caminhada começou no número 1 da Av. Rio Branco, no belo prédio comercial onde tem a única lojinha da Kopenhagen (fundada em 1928)  na cidade - pra mim , o melhor chocolate que há no Brasil! -   e que serve almoço e pequenas refeições. Super gracinha!
 
Então lá fui eu, seguindo pela  longa avenida em direção ao Aterro - ou Av. Beiramar. Ao todo são 1.800 metros.
Passei por algumas livrarias - sendo que a Travessa  é especialmente charmosa. Na entrada,  vemos logo  uma bela porta azul, com uma nau à moda antiga trabalhada na madeira pesada. Uma rápida 'travessia' até o passado...
 
O café lá em cima é uma ótima opção para almoço ou fazer uma pequena pausa para melhor folhear o seu recém-adquirido 'O Alienista'  ou ' Cem Sonetos de Amor' de Neruda. :-)
Na Travessa, ( ao contrário das outras livrarias  mais americanizadas  'globalizadas' que descobri ao longo da Av. Rio Branco e arredores...) ,  a parte de 'literatura brasileira'  não envergonha.   Ao menos,  há dois setores distintos dedicados aos autores nacionais e alí você não corre o risco de encontrar o seu Jorge Amado ou Machado de Assis dividindo a mesma estante com  um Dan Brown, Michael Crichton  ou Danielle Steel!
( Nada contra nenhum destes autores. Aliás, do Dan Brown sou particularmente fã.  Mas penso que as livrarias no Brasil poderiam ter um pouco mais de 'respeito'  e valorizar mais os autores nacionais - mesmo estando ciente de que nas listas dos best-sellers aqui,  quase todos os livros são de autores estrangeiros... )
 
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Ainda na Rio Branco, entrando no edifício Marquês do Herval, desce-se uma interessante escada redonda e chegamos na SUPER livraria 'Leonardo da Vinci'.
Alí encontramos todo o tipo de literatura - desde os tempos 'clássicos' até o presente. Livros em inglês, francês, alemão, espanhol...Simplesmente fantástica a 'Da Vinci' ! E tem de quebra o  'Gioconda Café' ,  que tambem serve almoço. 
Ah! E como se isto não bastasse, o sebo 'Beringela' fica alí ao lado!
Sim porque se você não tem 50, 70... reais para comprar um dos 'clássicos' novinho em folha, no 'Beringela' você os consegue em edições antigas ( muitos deles de capa dura e em edições muito mais bonitas do que as modernas...) por 6, 7, ou 10 reais !!
 
Resumo da ópera:  Saí de lá com meia dúzia deles ( afinal isto é o que não consigo comprar nos E.U...) , incluindo uma capa dura de 'Gabriela Cravo e Canela', ' O Crime do Padre Amaro' e ' Corpo Vivo' . 
Minha visita ao Edifício Marquês do Herval definitivamente valeu a pena!
 
Naturalmente , nesta minha excursão pelo centro histórico do Rio, tive de dar um pulinho até a Confeitaria Colombo ( de 1894) , sentar em uma de suas mesinhas de mármore,  tomar um suco de laranja feito na hora e comer um croquete e uma empada !  Um pit-stop mais do que necessário e merecido. Ufa!
Apesar de toda a agitação e burburinho lá fora,  a Colombo continua com o seu charme e ar de 'Velho Mundo' .  .  
 O restaurante em cima serve almoço todo dia - um belo buffet que sai na faixa de 50 reais por pessoa. Bela, bela e histórica Colombo!
Nota: Não resisti e tive de tomar o elevador antigo até o segundo andar para tirar uma foto lá de cima. Comprei um saleiro e pimenteiro com o símbolo da loja. 
Realmente, uma visita a Colombo é um must para qualquer um que visite o Rio!
 
 
Ok, uma rápida escapulida até a rua Primeiro de Março e visita à Igreja do Carmo , de 1770 e que foi palco da sagração de D. João VI em 1816,  a igreja onde  D. Pedro I e D. Leopoldina se casaram em 1817 e ainda o local onde  D. Pedro I e II  foram sagrados!   
 Ah, mas como  está suja e poluída por fora...  Por que não se limpa e restaura os prédios antigos no Brasil??!  A única exceção parece ser o Teatro Municipal...
Mas dentro a igreja é belíssima e vale uma visita - mesmo pra quem não é religiosa ! lol   Digamos tratar-se de 'uma visita histórica e cultural''...
Entrei. Agradeci aos céus 'todas as coisas boas que tenho na vida...' e , de quebra, pedi mais algumas 'coisinhas' , lol.  Ora , por que não?
Pedir, como perguntar, não ofende.
 
 
Então cheguei na Livraria São José  - hoje no seu terceiro endereço. A dica me foi dada por um primo que conheceu bem meu avô e que sabe que faz anos que tento recuperar algumas de suas obras. 
"Vá até lá. - ele disse.  Seu avô  costumava frequentar muito a São José , que hoje é um sebo. Com sorte, talvez você até encontre alguma obra sua já há muito não publicada....'
Não encontrei nenhuma obra sua na São José. Mas conheci o atual dono, que conheceu e se lembrava muito bem dele!!
"Seu avô era um camarada muito divertido e muito sacana!  Grande intelectual. Costumávamos ir até o bar da esquina tomar uma 'batidinha de cana' . Na época eu era um meninote de uns 15 anos e trabalhava na loja .'" 
Yeah, that sounds a lot like my grand-father!  - pensei .
 
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Volta à Rio Branco. Vejo o belo prédio do Clube Naval. Me lembro de uma festa de casamento que fui lá há séculos.    Passo em frente e entro pra dar uma olhada no restaurante 'Vilarino'. O menu é requintado e o lugar mais parece uma cave...  Naturalmente tem uma excelente carta de vinhos. 
 
Passo pelo Teatro   Municipal  , a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes - todas as três construções da mesma época, o começo do Século XX. 
Que pena que as outras construções da avenida não tenham sido igualmente tombadas e preservadas! 
Em sua 'modernização do Rio'  , no começo do século passado ,  tudo o que conseguiram fazer com a Rio Branco foi transformá-la de uma charmosa avenida em estilo boulevard parisiense, em um primo pobre do Financial District de Nova Iorque!     
 
 
 
 A boa  notícia é que parece que há um movimento 'verde' querendo transformar a histórica avenida em  'rua de passeio , aberta somente para os pedestres! Por enquanto são só rumores, mas quem sabe o rumor se torna realidade??
Quem sabe não farão isto como parte da 'maquiagem' da cidade para o Rio 2016?
 
Na verdade é  pouco provável que mexam no Centro pois afinal lá não tem  nada a ver com 'esporte'. Mas quem sabe. Quem sabe ...
Pessoalmente,  gostaria de ver o Centro  limpo, restaurado e DESmodernizado!
A Rio Branco novamente  arborizada, cheia de cafés, livrarias, museus , cinemas  e restaurantes...- assim como era no começo do Século XX.  Na era pré-Pereira Passos!  
Uma avenida frequentada unicamente por pedestres...
Cultura, história e negócios - tudo no mesmo lugar.  Já imaginou?
 
Afinal, o Centro do Rio foi onde a cidade começou e apesar de todas as BARBARIDADES que sofreu em nome da 'modernização' ,  -demolições absurdas, aterros ridículos ( dá pra acreditar o que fizeram com a Praça XV, hoje um espaço aberto de puro cimento, sem o menor urbanismo?  O  antigo Cais Pharoux , hoje completamente enterrado nos livros de história!  ) , a destruição do Morro do Castelo ...-  Sim apesar de tudo isso ,  o Centro ainda tem o seu charme . E tem  principalmente algo que nenhum dos outros bairros, mais modernos e 'in fashion'  da cidade  têm : HISTÓRIA ! 
 
É pena que a grande maioria das obras realizadas para a Olimpíada de 2016 no Rio serão feitas na Barra da Tijuca - o bairro mais moderno, impessoal e americanizado da cidade ...  Os moradores da Barra que me perdoem , mas aquele bairro infestado de  nouveaux riches nada mais é do que uma cópia pretenciosa de nossa  velha e boa Miami! 
 Mas o fato  é  que é na Barra onde  restam ficam os espacos mais abertos da cidade;  as lagoas e a maior extensão de praia para a realização de vários eventos esportivos  - sem falar a parte com  o ar mais 'respirável'  para os atletas! 
 
Apesar de tudo , minha parcialidade pelo Centro do Rio continua imutável.
Quem sabe um dia alguem não resolve ressussitá-lo e fazer dele novamente um lugar digno de ser frequentado , não apenas por turistas de passagem pela cidade ou cariocas que 'são obrigados a ir lá todo dia para trabalhar...' , mas por todo o mundo  -  incluindo cariocas das Zonas Norte, Sul,  de cidades vizinhas como Petrópolis e Friburgo , da  própria Barra da Tijuca , onde  tantos jovens vivem  enfurnados em seus condomínios fechados  de luxo.  Pessoas que jamais estiveram no Centro do Rio e nem sabem nada a seu respeito!  
 
Quem sabe o tal projeto ' verde' da Av. Rio Branco não acontece mesmo e deslancha?
Um dia um tal de FHC conseguiu , depois de décadas de inflação desenfreada , estabilizar a economia brasileira.  ( E não , o mérito não é do governo atual.  Seu mérito é apenas o de não ter f*uck*d up  o trabalho de seu antecessor! )  
Milagres às vezes acontecem.  Penso que a estabilização da economia e controle da inflação no Brasil foi um deles.   Quem sabe daqui há 5 ou 10 anos a Av. Rio Branco no centro do Rio não terá se REtransformado em um boulevard cheio de canteiros, sem camelôs, sem carros ou ônibus,  apenas o metrô,  cheio de délis, restaurantes executivos, museus, livrarias e uma longa e larga calçada,  limpa de papeís de anúncios  e  frequentada por gente menos estressada,  calmamente andando de mãos dadas,  ao invés de correndo e se acotovelando uns aos outros ?
Será isso uma quimera?  Talvez.   Mas a esperança é a última que morre...  

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